Hoje são 69 (!) dias sem voce, depois de uns 7300 que passamos juntos, ou quase.
Vou começar agora um exercício de exorcismo. Tenho necessidade de exorcizar você de dentro de mim.
Para isso terei que trazer à baila todos os acontecimentos que eu conseguir recordar. Minha memória deu de ficar péssima para preservar minha saúde mental.
Vou construir uma espécie de diário retro.
A minha primeira habilitação foi em junho de 1989. Meu sonho era ao comprar meu primeiro carro, sair pilotando.
Levou tempo até conseguir, mas foi como planejei. Era um Corcel II branco, bem velho. Mas foi uma experiência indescritível.
Por inexperiência e falta de orientação, me desfiz do carro pouco tempo depois.
Foi uma experiência amarga. Arrependi-me tanto. Demorou até conseguir comprar outro.
Comprei uma Belina amarela à álcool, quase um ano depois.
Era um carro grande, de garagem, novinho. Mas eu não sacava nada de carro e no dia seguinte entrei em pânico, porque não consegui fazê-la funcionar.
Havia um homem na minha rua que tinha um taxi e era à álcool. Pedi ao meu filho para chamá-lo.
Todo solicito ele veio imediatamente e botou a Belina para funcionar. E me deu umas dicas.
Ele me pareceu tão inteligente, e gente boa, me causou uma primeira boa impressão.
Dias depois, deu outro problema no carro e ele novamente me socorreu, fomos comprar a peça e mandar arrumar.
Eu não sabia absolutamente nada da vida dele, mas o via sempre passar com a mulher. E isso me mantinha completamente desinteressada, além do mais, não estava em meus planos me envolver com uma pessoa desonesta.
Se ele tinha mulher, e estava me azarando, era um pilantra.
Lembro de uma vez, ao abastecer o carro, ele apareceu de repente. Hoje sei que foi premeditado.
Em outra ocasião, eu estava a caminho do trabalho e o vi parado, como se estivesse quebrado. Parei para oferecer ajuda.
Era armação. Lembro apenas de ele me tocar e eu sentir um calafrio o resto do dia.
Todo inocente, ele me perguntara onde eu trabalhava, umas perguntas normais de quem quer fazer amizade, ou forçar...
Então ele apareceu na janela do meu trabalho numa sexta-feira, final do expediente, e aguardou minha saída.
Eu o segui até o “ponto” e ficamos conversando bobagem. Tudo aconteceu como se a gente já se conhecesse. Foi inexplicável. Beijos, toque, parecia que éramos velhos conhecidos.
Já dizia o poeta, Manoel Bandeira: - As almas são incomunicáveis. Deixe o teu corpo entender-se com outro corpo, porque os corpos se entendem, mas as almas não. As almas são incomunicáveis. A alma estraga o amor, só em Deus ela encontra satisfação. Em outra alma, impossível. Para sentir a felicidade de amar, deve-se esquecer da alma.
Depois desse encontro (17-08-90), ele veio com papo de casado e feliz. Ele tinha uma vida muito feliz e não queria perturbação.
Fiquei pasma com aquela reação. Não falei nada. Naquele dia eu tive certeza que se nos encontrássemos uma segunda vez, não tinha volta.
Quatro dias depois, apareceu na minha casa, um homem se dizendo sobrinho dele. Veio com uma história meio sem nexo.
Ele disse estar desempregado e que teve a ideia juntamente com o tio, de revender peixes. Perguntou se eu me importava de oferecer para minhas amigas. Daí pediu meu telefone para entrar em contato comigo.
Até havia me esquecido disso, até receber uma ligação – sabe quem está falando?
Claro que não reconheci a voz do individuo. Era o próprio. Ele inventou uma história e mandou o sobrinho para conseguir meu telefone.
Não demorou muito para eu perceber a cilada, mas estava tão envolvida que achava sempre uma justificativa para tudo.
Cada dia mais envolvida, mesmo assim a situação era desagradável, rotineira e cansativa.
Pra começar, ele estava construindo uma casa tipo Highlander, faliu de tanto comprar cimento e areia e ferro.
No outro dia já foi me pedindo cheques “emprestados”. Tenho um amigo agiota. Peguei com ele uma grande soma em nome do individuo.
Meu amigo que não é bobo, pegou meus cheques como garantia. Todos foram apresentados, mas nunca ele me deu o dinheiro. Fiquei encalacrada.
Logo ele precisou vender o taxi, mas a minha esperança de ver meu dinheiro foi vã.
Na verdade, meu prejuízo só aumentava, porque nossos filhos estudavam na mesma escola e a gente se reveza na condução deles.
Sem carro, sem lenço, sem documento, além de eu levar e buscar os meninos sozinha, ele ficava todo dia me esperando na avenida.
Eu o levava no trabalho, voltava pra casa correndo, fazia tudo correndo, pegava os meninos e saia voando para o meu trabalho.
Isso durou quase dois anos. Eu já estava exaurida, ele era muito cara-de-pau. Mesmo assim eu ainda tentava achar justificativa.
Mas eu estava realmente cansada e falida. Rodava muitos km/dia e ele jamais ofereceu qualquer ajuda.
Acabei destruindo o carro de tanto bater no portão. Vivia com sono. O bicho era um vampiro.
Troquei minha Belina por um Monza Hat vermelho, lindo, do meu amigo agiota.
Nem lembro quantas vezes emprestei o Monza para o fofo.
A situação estava se agravando, e meu prejuízo fora de controle. Resolvi dar um basta.
Pouco tempo depois ele me procurou para dizer que a mulher o havia expulsado de casa.
Resolvemos assumir nosso caso. Ele me apresentou aos irmãos, à mãe, todo mundo.
Imaginei que finalmente teria uma vida decente com esse cara, mas meu pesadelo estava só começando.

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